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Teologia da Siriguela


      Conta-se uma história no Nordeste que um menino “aceitou” a Jesus e agora estaria fazendo sua confissão de fé. O menino coloca-se de joelhos e o pastor coloca as mãos em sua cabeça e começa a pronunciar a “doutrina” da igreja a qual ele pertenceria: “Meu filho, agora que você é crente você não pode mais jogar bola, ir a bailes, dançar, fumar, beber”. O menino, aflito, entre a emoção de estar sendo recebido pela comunidade e o conflito de ouvir tudo aquilo como “proibido”, pergunta: “Pastor, mas eu posso tomar suco de siriguela?” Hoje em dia ainda é assim? Façamos, pois, um descritivo de nosso tempo: não precisa trocar as vestimentas, decoração de casa, linguagem, time, academia ou deixar antigas amizades. Não mais ruptura cultural quando se adere aos evangélicos. Pode-se converter e continuar do jeito que está. Podemos usar as mesmas roupas, alias, as mulheres podem continuar usando os mesmos vestidos (micros) e as saias (mini); jogar um jogo qualquer, ir ao estádio para torcer pelo time do coração (desde que nesse coração fique um lugar pra Jesus), ir a shows com artistas de MPB, posar para revista masculina mostrando seus dotes femininos (tudo isso de forma muito artística e profissional, claro), apresentar programas de madrugada (geralmente com programação erótica e pornográfica)... tudo isso é normal. Por que mudou tanto? Será que evoluímos ou estamos retrocedendo? Se tornar um cristão a alguns anos atrás (poucos anos) era assinar um atestado de martírio. Era ser taxado de “careta”, de “bíblia”. Se converter a algumas décadas atrás era no mínimo perigo de ser preso. Tudo isso mudou ou está mudando drasticamente porque temos uma diversidade absurda de igrejas (denominações). Tem igreja pra tudo que é tipo. É só escolher. Mas onde fica o cristianismo? Cristianismo! Que é isso? Isso não tem mais tanta importância desde que estejamos inseridos em uma comunidade que nos abrace, mesmo sendo somente por interesse, e desde que me “vendam” aquilo que estou precisando... eu pago!

Boaz Alberto Sperber

O Brasil é do Senhor Jesus!


      É o que a maioria das igrejas profere em tom profético em suas acaloradas reuniões. Olhando para o crescimento espantoso do evangelho nas últimas décadas, isso não nos choca. Estamos sempre entre os primeiros países mais católicos do mundo (o catolicismo é uma religião cristã); estamos sempre entre os lideres no quesito “mais evangélico do mundo”, enfim, temos um território bem demarcado. Será? Em alguns momentos acredito haver um certo equívoco na frase “o Brasil é do Senhor Jesus”. Será que não podemos dizer que o Senhor Jesus é brasileiro? Ou é o que muitos gostariam. Um abrasileiramento de Cristo. Pelo que parece sim. O evangelho tomou algumas proporções dentro da nação que assustam qualquer analista histórico, sociólogo, teólogo, enfim muitos “ólogos” ficam apavorados com o que acontece por aqui. Precisamos fazer uma pergunta muito clara: a igreja cristã (principalmente a de origem protestante: tradicionais, pentecostais, neopentecostais [?]) alterou a cultura brasileira ou foi alterada por ela? Assimilou ou foi assimilada?  Será que assimilamos mesmo o “jeitinho brasileiro” de ser quando deveríamos modificar o “ethos” nacional? Entende-se cultura como o sistema de comportamentos aprendidos, idéias e produtos que caracterizam uma sociedade. O grande problema começa com o tanto de denominações que temos dentro deste país tropical, abençoado por Deus (e bonito por natureza... é claro). São tantas “placas” dizendo que o Brasil é do Senhor Jesus (?) que não sabemos pra onde correr. Tem igreja pra tudo que é tipo e gosto. Outro dia, aqui mesmo em nossa cidade, olhei pra uma placa de igreja e identifiquei um nome bem adequado para a ocasião (eram quase 22h, momento em que inicia a serração no inverno em regiões mais elevadas): “Nevoeiro de Fogo”. Achei incrível... quanta imaginação. E o detalhe, haviam pessoas lá “cultuando”. Isso me aponta pra um protestantismo pluralista, eclético e com muitas caras. Mas cara brasileira mesmo tem o movimento neopentecostal (IURD, IIGD, ISNT, IMPD, entre outras). Que mistura de candomblé com protestantismo. A impressão que se tem em muitas dessas reuniões “evangélicas” é que você entrou no terrero errado. É uma mistura de sal grosso com rosa ungida com entrevista de entidades demoníacas que você precisa ver. Muitas dizem que isto é poder de Deus. (Ainda fico com as palavras de Paulo em Rm 1:16 - Eu não me envergonho do evangelho, pois ele é o poder de Deus para salvar todos os que crêem... Evangelho é boas novas. Boas notícias. Esta boa notícia fala da salvação em Jesus Cristo. Isso sim é poder. E não “enxergo” em momento algum Paulo vendendo lenço, rosa, meia (ahhh, R$ 128,00 o par, ungida, é claro), oléo de unção, nada disso. Nem de graça Paulo fazia esse tipo de barganha. O evangelho não precisa de alicerces baratos para sustentar a fé de ninguém. A fé está em Jesus). Sem falar na roupa do pastor: totalmente branca. Parece ou não parece uma reunião afro. Claro que sim. E esse tipo de movimento tem crescido assustadoramente. Templos suntuosos, “ministérios” poderosos, verdadeiros impérios. O discurso é muito bom: temos que atender a demanda de nosso tempo. Claro. E o nosso tempo é marcado pela comercialização, inclusive e principalmente da fé. Compramos tudo. Compramos o perdão com algumas notas que são colocadas no gasofilácio (nome do local onde colocamos as ofertas); compramos a cura quando adquirimos um objeto ungido; compramos o pastor quando oferecer um churrasco. Enfim, compramos tudo. O momento é de crise. E grande! Esse é nossa realidade. Muitos chamam isso de contextualização, outros de sincretismo religioso, outros de aculturação, mas prefiro ficar com o termo usado por Gedeon Alencar: protestantismo tupiniquim.

*Esse texto foi uma breve síntese de alguns capítulos do livro de Gedeon Alencar, Protestantismo Tupiniquim, Editora Arte. Muitas frases contidas no texto são réplicas dos originais constantes no livro.

Boaz Alberto

O Evangelho e a TV



 Graças a Deus o evangelho obteve seu espaço nas programações televisivas de nosso país (Brasil). Não aguentava mais passar os canais de TV e ter somente pessoas “pagãs” nos programas apresentados pelas emissoras. Fica somente a pergunta: a Igreja Evangélica assimilou a TV ou foi assimilado por ela?¹ Será que estamos usando a TV para evangelismo ou marketing gospel. Não é nada corriqueiro ligarmos a TV e encontrarmos programas que evangelizam e que apresentam um evangelho que transforma (o discurso pelo menos é esse). Mas menos corriqueiro ainda é vermos os “fabricantes” destes programas promovendo seus artistas com uma estratégia de marketing de causar inveja a qualquer “Duda Mendonça”. Pra mim que sou evangélico desde berço, quase nem noto essas coisas... até já me acostumei. Mas e o telespectador não-evangélico? Sabe diferenciar o discurso evangelístico do marketing? O que mais é interessante é que se tornou comum aparecerem evangélicos por todo canto e de todo jeito. Está se tornando comum, por exemplo, ligarmos em algum programa de auditório (programas com dançarinas ao fundo, com brincadeiras de mulheres semi-nuas dentro de piscinas, participação de grupos de pagode... você sabe como esses programas funcionam) um(a) evangélico(a) participando. Eles vem com aquele discurso muito bonito: “Agora sim, sou feliz. Em jesus encontrei minha felicidade”. Coisas desse tipo. Interessante é a parceria que a TV conseguiu com muito sucesso (sucesso porque existe público consumidor interessado): programa de auditório (sensacionalismo+sexo+evangelho). Que mistura surpreendente. O mercado dita as regras do jogo. Precisamos atender ao público evangélico crescente dentro de nossa nação. Que público evangélico hein! Assustador!  O que incomoda em ver a Carla Perez sambando em um programa de rede nacional ao som de um samba gospel? Você é muito radical! A igreja precisa se contextualizar. Vivemos em outro evangelho. Cai na real e deixa de ser careta! Quando ouço falar de programas que exibem tais cenas de personalidades ditas evangélicas (não sei onde), fico pensando no que a TV tem ajudado (?) o protestantismo dentro de nosso país. Esse fenômeno que se desenvolveu na mistura TV+evangelho, tem muitos nomes: contextualização, aculturação, sincretismo, mundanização, mas fico com a definição de Gedeon Alencar: carlaperenização da cultura brasileira. Pra finalizar, um conselho pra você que é cristão: vai lê um bom livro, a Bíblia...

¹ Alencar, Gedeon, Protestantismo Tupiniquim, pg 74

Boaz Alberto

Gospel



 Bem no início (igreja primitiva) estávamos preocupados com a essência do cristianismo: influenciar a sociedade em nossa volta. Tempos depois (muito tempo), percebeu-se que o melhor é o céu e nada mais nos interessa. O mundo jaz no maligno mesmo. Não queremos mais transformar o mundo, queremos sair dele. Agora a bola da vez é a contextualização. Nada contra. Acho que precisamos estar atentos aos desafios (gigantes) de nossa cultura e de nosso tempo. Vivemos em pleno século XXI. Em análise história, o evangelho dentro de nosso solo pátrio passou por períodos interessantes de contextualização. Por exemplo, 1953, quando é lançado o movimento nacional de evangelização (Cruzada Nacional de Evangelização). Foi um movimento da modernidade. Usar guitarra e bateria pra evangelizar... isso foi quebra de paradigmas. Pra um movimento protestante que usava somente música clássica, isso era muito forte. Como se guitarra e bateria fosse coisa do diabo. Tempos depois surge os grups de coreografia. Como dançar é coisa mundana, surgem de forma muito mecânica esses grupos de. E coreografia pode, dançar não. A dança também é coisa do diabo. Penso que Miriã, Davi... não penso nada (...). não quero defender dança como parte integrante de culto, por favor. Só estou fazendo uma breve distinção da contextualização no decorrer da história. Momentos depois, surge a “Marcha para Jesus”. Esse movimento é gospel. Bem contextualizado. Saímos pelas ruas da cidade uniformizados (cada igreja providencie suas camisetas); alguns de calça, outros de shorts (curto de preferência... é quente no verão); alguns dias antes você precisa descançar bem para pular e agitar muito no dia da marcha. Que festa! Isso é gospel. Uma movimentação sem muita ordem, trio elétrico. Nela pode tudo e cabem muitos (ou todos). Simpatizantes são bem vindos. Parece mais um “carnaval gospel”. Pra ajudar nossa “viagem história do movimento protestante brasileiro”, ouvi outro dia sobre um irmão que recebeu um convite de um “Arraial Gospel”. Fantástico não? Forró, fogueira, tapioca, pipoca, bolo de milho, fogos, quadrilha (de dança, ou pensou outra coisa), crentão (quentão não pode... não podemos nos embriagar com vinho, mas temos que nos encher do Espírito). Enfim, tudo muito próximo do original. Existe até a Festa Jesuína em algumas comunidades por ai. Pena que o povo não sabe que estas festas são festas religiosas católicas celebradas a santos agradecendo pela safra. Estamos no caminho certo (?). E por último, bem recente, a balada gospel. Com tudo o que tem direito. Feitas em locais retirados. Artistas de renome (gospel, é claro). Iluminação de tontear a cabeça de qualquer matuto que vai a uma dessas festas. O som? É contextualizado claro. De preferência pra ser bom tem que ter um eletro junto, afinal o que vale é “pirar”. Lá tem o “extase” do Senhor Jesus e o outro (aquele, em forma de comprimidinho...). Legal né? O pior de tudo é que estão vinculando pessoas e denominações sérias a essas festas. Por favor, façam o que quiserem, mas não envolvam gente séria nisso.
Fico pensando onde vamos parar do jeito que estamos indo. Será que ainda tem “breque” nesse trem? Acho que o negócio ta desgovernado sô.
Que alianças tem as trevas com a luz? A igreja brasileira precisa se contextualizar com certeza, mas existem limites. Precisamos algumas “manobras” pra manter nossos jovens dentro de nossas comunidades? Acredito que sim. Mas existem prioridades e formas de se fazer isso. Não podemos permitir que a farra seja feita em nome dos evangélicos. O que existe são aproveitadores e denominações se aproveitando pra fazer a festa (literalmente). Mantenha os olhos atentos em Jesus. Lembre-se: sua prioridade está na Palavra de Deus.

Boaz Alberto
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